Acho que nunca um assunto entrou tão rápido no meu consultório quanto esse. De repente, parecia que todo mundo conhecia alguém que estava usando "a caneta". Um vizinho, uma colega de trabalho, uma artista famosa. E aí chega o paciente, às vezes meio sem graça, e pergunta: "Doutor, será que aquela injeção de emagrecer serviria pra mim?"
A pergunta é legítima. As tais canetas mudaram, de verdade, a forma como a gente trata obesidade — isso eu reconheço com tranquilidade. Mas junto com o resultado veio uma onda de uso por estética, sem acompanhamento, comprando sabe-se lá o quê pela internet. E é justamente nesse ponto que eu preciso ser franco com você. Senta que a conversa é boa.
Antes de tudo: o que são essas canetas
Por trás do apelido bonitinho estão medicamentos de verdade, sérios, da classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Os nomes que você já deve ter ouvido são a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro), essa última com um mecanismo duplo. [2]
Eles imitam um hormônio que o nosso próprio intestino produz e que faz duas coisas, basicamente: ajuda a controlar o açúcar no sangue e — o que interessa a quem quer emagrecer — aumenta a sensação de saciedade. Na prática, a pessoa sente menos fome e fica satisfeita com menos comida. Foram criados pensando em diabetes tipo 2 e em obesidade. Repare: obesidade, uma doença. Não "perder os três quilinhos do verão".
Elas funcionam? Sim. E bastante.
Não vou fingir o contrário, porque a ciência aqui é robusta. Em estudos grandes, a semaglutida levou a perdas em torno de 14% do peso corporal, e a tirzepatida foi ainda além, chegando a cerca de 20% em 72 semanas — e, num estudo que comparou as duas cara a cara, a tirzepatida saiu na frente. [1][3]
Para quem convive com obesidade há anos, tentou dieta, academia, mil reinícios de segunda-feira, isso é um divisor de águas. Eu vi pacientes recuperarem mobilidade, controlarem a pressão, o diabetes, e — talvez o mais importante — recuperarem a autoestima. Então não, eu não sou desses que torcem o nariz para o remédio. Ele tem lugar, e um lugar importante.
O problema nunca foi o remédio. Foi o uso dele como se fosse bala de hortelã.
Agora a parte que ninguém posta nas redes.
Em fevereiro de 2026, a ANVISA acendeu um sinal vermelho que eu faço questão de repetir aqui: foram 65 notificações de mortes suspeitas e mais de 2.400 relatos de eventos adversos associados a essas medicações entre 2018 e 2025. [4][6] Calma — notificação não é o mesmo que prova de causa; muitos casos envolviam uso fora de indicação, dose errada, ou até produto manipulado e falsificado comprado por fora. [6] Mas o recado é claríssimo.
Entre os riscos reais e descritos em bula estão a pancreatite aguda (inclusive casos graves), e há um detalhe que pouca gente associa: emagrecer rápido demais aumenta a chance de pedra na vesícula. [4][5] Os efeitos mais comuns são gastrointestinais — náusea, vômito, intestino preso ou solto —, geralmente mais fortes no começo, conforme a dose vai subindo. [1]
Foi por causa de tudo isso que a ANVISA, em 2025, passou a exigir receita em duas vias e retenção na farmácia, igual a antibiótico. [2] Não é burocracia à toa. É porque a coisa estava saindo do controle.
"Mas é só tomar e pronto" — não é, e aqui está o pulo do gato
Esse talvez seja o ponto que eu mais insisto no consultório. A caneta não ensina ninguém a comer melhor, nem coloca ninguém pra se mexer. Ela ajuda — e muito — a controlar a fome enquanto você reconstrói seus hábitos. Mas se nada mudar embaixo disso, acontece o que a gente já vê: a pessoa para o medicamento e o peso volta. Às vezes quase tudo.
Por isso, quando funciona de verdade, é porque entrou como parte de um plano: alimentação, atividade física, sono, acompanhamento. A injeção é uma ferramenta poderosa, não um milagre que dispensa o resto.
E tem outra coisa que me preocupa muito: gente magra, sem indicação nenhuma, usando por estética. Aí o risco simplesmente não compensa o benefício. Não existe almoço grátis em medicina.
No fim das contas
As canetas emagrecedoras são um avanço real no tratamento da obesidade — disso eu não tenho dúvida. Mas são medicamentos sérios, com riscos sérios, que pedem indicação correta, dose certa, produto de procedência confiável e acompanhamento de perto. Não são atalho, não são estética de farmácia, e definitivamente não são coisa pra comprar no escuro pela internet.
Se a obesidade é um peso na sua vida — e eu digo isso no sentido literal e no figurado —, vale a pena sentar com um médico, entender se esse tratamento faz sentido pro seu caso, e fazer isso com segurança. Não tem pressa que justifique colocar a saúde em risco.
Referências
- Aronne LJ, et al. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-5). New England Journal of Medicine, 2025.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medicamentos agonistas de GLP-1 só poderão ser vendidos com retenção da receita. Abril/2025.
- Comparative Efficacy of Tirzepatide vs. Semaglutide in Reducing Body Weight: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2025.
- ANVISA. Alerta sobre o uso de medicamentos agonistas de GLP-1 ("canetas emagrecedoras"). Fevereiro/2026.
- Fiocruz / Radis. Entenda os riscos das "canetas emagrecedoras". Março/2026.
- G1. ANVISA registra 65 notificações de mortes associadas a canetas emagrecedoras. Fevereiro/2026.
